No último sábado, saí um pouco da rotina do ateliê para assumir uma função que eu adoro, mas que exige um tipo diferente de atenção: Stage Manager e roadie.
Fui convidado pelo Thiago Silva (organizador do evento e diretor da banda) para dar suporte técnico e cuidar do palco no Louvart, uma conferência e mostra cultural concebida pela igreja MSBN (Assembleia de Deus Ministério Semeadores de Boas Novas em Portugal). O evento aconteceu no Auditório Senhora da Boa Nova, ali na Rua do Campo Santo, no Estoril.
Além de apoiar a causa patrocinando o evento e doando alimentos (já que inclusive a entrada do público era “cobrada” 100% em doações de alimentos), entrei de cabeça na operação do palco para que o Thiago pudesse focar 100% na direção musical da banda sem precisar se preocupar com os pequenos incêndios que sempre acontecem nos bastidores.

Indo ao primeiro tópico, gostaria de deixar uma breve pergunta: vocês sabem qual o maior desafio em um palco!?
Para mim, sem sobra de dúvidas, é guiar uma pessoa que nunca esteve em um palco, num auditório ou teatro grande antes na vida… mas para contextualizar isso antes, vamos por partes.
A programação do Louvart foi bem diversa. Contou com banda ao vivo, peças de teatro, apresentações de dança e exposições de arte no espaço exterior, com cantina e uma estrutura muito bacana.
Só que tinha um detalhe importante: a maioria do pessoal que subiu ao palco tinha experiência apenas com apresentações em igrejas locais. Quase ninguém ali tinha pisado antes num palco de teatro ou auditório de grande porte.
E palco grande assusta muitoooo!!!! Principalmente se você não tem costume.
Minha primeira missão foi fazer uma breve preparação com a galera antes de o som rolar. O foco principal é ensinar como funciona de forma simples e trabalhar individualmente pra tirar o medo e nervosismo de cada um.
Expliquei o básico de comportamento de palco: onde se posicionar, e principalmente onde não ficar para não sumir da iluminação… ou pior, atrapalhar os outros colegas, por onde entrar e sair, qual microfone usar e como segura-lo, alem de como se portar diante do público.

Quando a música começava, meu papel era garantir que tudo rodasse redondo. Atuei ali no meio-termo entre diretor de palco e roadie: prevendo imprevistos, ajustando posições, checando cabos e mantendo os músicos focados apenas em tocar.
O próximo passo eu gosto de chamar de “eu sou a ponte entre o palco e a house mix”.
Como todos sabem estou cursando engenharia de áudio. E a minha cabeça não desliga a parte técnica em momento nenhum.
O som da casa ficou nas mãos do Tomás Ribeiro, que foi o engenheiro responsável pela mixagem e master do evento (e funcionário do próprio auditório).
Eu fiz exatamente a ponte entre o Tomás, na mesa, e a banda, no palco.
Eu ia direto nos músicos, um por um, desde o guitarrista, o Baixista, baterista, o Thiago que era k diretor, os backs e as vozes principais… perguntava, conversava com eles e tentava entender o que cada um queria… o que cada um precisava ouvir, ajustava os retornos e mandava as coordenadas para a house mix. Onde o Thomás ficava ajustando com a maior paciência e carinho do mundo.

Numa dessas, recebi a informação que a guitarra acústica e a pedaleira da guitarra elétrica estavam chegando na mesa com o som meio desbalanceado, às vezes meio “magro”, as vezes meio saturado de mais…
Cheguei junto, dei uma mexida nos ajustes da pedaleira e no roteamento do violão para abrir o sinal em estéreo bonitinho.
Usarei os simuladores de amp pra jogar um som ideal.
A diferença no preenchimento do som da banda foi imediata.

É engraçado como a prática de luthieria e a engenharia de áudio se cruzam nesses momentos. Quando você entende como o instrumento gera o som e como a física do sinal elétrico funciona. Cada caminho que ele faz, todo roteamento, cada passo, o que pode ou não estar causando os problemas até chegar na mesa, receber a mix, uma masterização e depois ir ao P.A., fica muito mais fácil resolver um problema no palco em 30 segundos antes da próxima música começar.
Falando em caminho que o som faz… O Auditório Senhora da Boa Nova… que espetáculo!
Difusão acústica fenomenal, estrutura de respeito!!!
Tenho que fazer essa menção honrosa ao espaço. O Auditório Senhora da Boa Nova, no Estoril, acolhe quase 700 pessoas e tem uma estrutura impecável.
Para quem trabalha com áudio, é um parque de diversões: mesas DiGiCo de topo de linha, periféricos Electro-Voice, Yamaha, Soundcraft, BSS, Biamp, Shure, Sennheiser, AKG, Audix, d&b audiotechnik, Radial Engineering, Bosch, Dis… vi tantas marcas que nem dá pra lembrar de todas! Mas era basicamente tudo do melhor que se pode imaginar.
Não consegui checar as caixas pessoalmente… mas meu ouvido não me engana… era no mínimo Electro-Voice. Ali tinha papo de 10.000€ a 15.000€ só em caixa de som.. sem contar cabeamento, mesa, periféricos, etc…
Mas o que me chamou mesmo a atenção, até pela minha bagagem de pesquisa e no doutorado na área de acústica, foi a arquitetura da sala.

O auditório tem uma acústica natural fantástica. As paredes laterais possuem uma espécie de “portas” em forma de painéis móveis. Quando abertas, elas criam vãos e geram um relevo na superfície da parede. Na prática, esses relevos funcionam como difusores acústicos físicos. É fenomenal as possibilidades de ângulos e aberturas.
Eles quebram as reflexões diretas e espalham a energia sonora de forma homogênea pela sala, sem precisar afogar o ambiente com excesso de absorção (o que deixaria o som “morto”).
Além das cadeiras serem feitas de um material que absorver ondas e ecos mesmo quando não estão ocupadas.
Ver esse tipo de solução arquitetônica funcionando na prática é o tipo de detalhe que alimenta diretamente os meus estudos teóricos de acústica e o trabalho de precisão que faço com instrumentos musicais.
Bom, mas afinal… além disso, por que essa vivência de palco importa?
Pode parecer que estar no backstage de um evento no Estoril organizando cabos e guiando músicos é algo distante do trabalho feito dentro da oficina de luthieria. Mas não é.

Para mim, um luthier ou engenheiro de áudio não pode viver trancado num laboratório olhando apenas para a madeira e para o osciloscópio. A música acontece no palco, no ar, na interação entre a acústica da sala, a eletrônica do equipamento e a mão do músico.
Passar o dia inteiro no backstage do Louvart 14, trabalhando lado a lado com profissionais como o Thiago Silva e o Tomás Ribeiro, renova essa percepção prática. É a certeza de que cada regulagem, cada alinhamento de braço, cada escolha de captador e cada cálculo de acústica que faço no meu dia a dia tem um propósito claro: fazer a arte soar da melhor forma possível para quem está ouvindo.
Parabéns a toda a organização da MSBN Portugal pelo evento e pela iniciativa solidária.
Nos vemos em breve!
Referências e Informações sobre o Evento:
Evento: Louvart (Conferência e Mostra Cultural) 14º Louvart
Organização: MSBN Portugal (Assembleia de Deus Ministério Semeadores de Boas Novas) Site oficial da MSBN
Local: Auditório Senhora da Boa Nova (Rua do Campo Santo, Estoril — Cascais, Portugal) Detalhes técnicos sobre o auditório
Direção Musical / Organização: Thiago Silva 👉🏼Instagram
Engenharia de Som (House Mix): Tomás Ribeiro 👉🏼Instagram
Direção de Palco & Suporte Técnico: Kris Luthier (Engenharia de Áudio / Luthieria) 👉🏼Meu Instagram







