Tudo começou de um jeito bem comum aqui na oficina. Um cliente me achou na internet, mandou mensagem contando que tinha encontrado um instrumento misterioso e queria saber se eu aceitava dar uma olhada. Acabou trazendo a guitarra aqui na Luthieria Music is Life, em Paço de Arcos, e passamos um bom tempo conversando sobre a história dele, que adora colecionar e modificar as próprias guitarras… além de me contar como conseguiu aquela guitarra, tudo isso antes de eu colocar a mão na massa.
Quando bati o olho na bancada, vi que era uma Patrick Eggle… reparei nas ferragens e percebi que claramente era uma Berlin. Na Europa/Reino Unido dos anos 90, o objetivo dessa marca, e modelo, era muito claro: ser a famosa PRS Killer.
Vocês devem estar se perguntando o que é uma PRS killer, não é meus amigos?
Aaahhhhh… simplesmente a matadora de PRS, como o próprio nome já diz (a gente ri, mas as PRS choram kkkkk)!
Se a gente fosse usar um termo popular pra definir, talvez seria o famoso meme adaptado para “pq choras PRS?”.
As Eggle britânicas apostavam em madeiras muito específicas, um carved top de respeito e uma junção de braço colado sem tróculo evidente que deixava muita guitarra boutique americana no chinelo.
Mas eu precisava dissecar o bicho para entender exatamente o que eu tinha nas mãos.
Aí começou a investigação.
A leitura dos seriais é onde a gente mapeia a história de verdade. Encontrei o número 009210 gravado na cavidade e a marcação 96#9210 na base do braço.

Ok, fabricação de 1996 na lendária fábrica de Coventry, Inglaterra. Só que quando abri a cavidade do captador do braço, tinha uma inscrição a caneta.
Parecia B PR8 IIT. Ou qualquer coisa assim… Fiquei olhando pra aquilo e pensando: “B PR8?” Ou “B PRS”?

Não fazia sentido nenhum. Fui atrás de catálogos antigos, registros de época e anotações. Foi aí que a ficha caiu: aquele 8 era na verdade a letra O na caligrafia rústica da fábrica. Diga-se de passagem que a caligrafia é de causar inveja a médicos!

Era B PRO HT. Berlin Pro Hardtail. A partir daí já não restavam mais dúvidas!
Diferente das versões com tremolo, essa saiu de fábrica com ponte fixa, garantindo aquele sustain e estabilidade de afinação monstruosos que o músico de estúdio procura.
Conforme fui desmontando a estrutura, a coisa foi ficando cada vez mais interessante. Ao retirar as tarraxas, vi a estampa “Made in W. Germany”. A Alemanha Ocidental já nem existia em 96, mas a Schaller continuou usando os moldes originais de injeção da série M6 até meados da década de 90.

Ou seja, as peças batiam perfeitamente com a data de nascimento da guitarra.
A ponte e o tailpiece eram da Gotoh Japan, o que já entrega aquela precisão absoluta na oitavagem/entonação que a gente confia de olhos fechados.

Mas o coração acelerou mesmo na captação.
Levantei o humbucker do braço e vi a etiqueta APH1NL. Um Seymour Duncan Alnico II Pro genuíno.


Só que o detalhe ali que faz os colecionadores babarem é a letra L no final. Esse L significa que o captador foi inspecionado e enrolado no Custom Shop pela lendária Maricela Juarez, a MJ da Seymour Duncan, que trabalhou direto com nomes históricos.

É o tipo de detalhe que muda o patamar de qualquer instrumento.
Aproveitamos para instalar capas metálicas neles, protegendo as bobinas e dando um visual mais sóbrio e elegante para o top. E se o cliente quiser tirar no futuro, é só aquecer e remover o pingo de estanho com um ferro de solda.
A parte elétrica foi uma das coisas mais curiosas desse projeto, e me deu o que pensar por um bom tempo.
Originalmente, ela vinha de fábrica com uma chave rotativa (rotary switch) para fazer a defasagem de bobinas. Historicamente muito legal e complexo, mas na prática do dia a dia? O cliente não curtiu muito a ideia. Achava difícil e lento trocar a chave ou acessar os timbres no meio de um show corrido. Então resolvemos fazer uma modernização de respeito, mas preservando tudo o que era original.

Tiramos a rotativa fora e instalamos um sistema push-pull para o coil-split no tone, um volume e uma chave seletora tradicional de três posições.
Coloquei um potenciômetro CTS A500k no volume, adicionei um circuito Treble Bleed padrão Duncan para não perder agudos quando abaixar o volume, e refiz toda a blindagem da cavidade com tinta condutiva de grafite para criar uma gaiola de Faraday decente.

Só que o pulo do gato dessa elétrica foi o controle de tonalidade.
Peguei um potenciômetro Fishman de 25k e abri a peça com cuidado. Cortei fisicamente a trilha de carbono para criar um sistema No-Load, o nosso famoso True Bypass.
Como 25k é uma resistência muito baixa para um captador passivo, quando o knob entra na trilha, a resistência despenca. Acaba funcionando quase como uma chave on-off para cortar o capacitor Orange Drop 222. Passou de 70% de giro, o contato rompe fisicamente e o sinal passa 100% puro, direto, sem filtro nenhum dos Seymour Duncan.
Saindo da eletrónica e indo para a parte estrutural da luthieria, tivemos um bocado de trabalho manual na bancada.
A tampa do tensor chegou partida em vários pedaços. Peguei um bloco de maple na oficina, tirei as medidas exatas da peça velha comparando lado a lado na foto e fui esculpindo uma nova do zero.

Fiz o tingimento tentando imitar o processo que aprendi em um curso da PRS que fiz… Normalmente eles usam esse processo nas guitarras pre-refinished… álcool, anilina, tintas e muita criatividade pra achar o tom certo da cor!

Resolvi fazer isso para casar com o tom esverdeado do top e com a marcação original em abalone.


Fui aplicando camadas de resina, lixando com paciência e polindo até ficar com aquele brilho vitrificado.
De início não possuía case… mas ele disse que havia achado um na internet. Em um site de leiloes online. Em breve chegaria.

O case que o cliente conseguiu garimpar na internet era um Hiscox Liteflite inglês verde da época, excelente para a proteção térmica e estrutural.
Ele mesmo reparou uns microfuros na carcaça com resina e trocou as dobradiças e fechos para devolver a integridade mecânica. Trouxe no fim para eu averiguar e corrigir se fosse preciso. Mas ele fez um trampo majestoso!

Já no setup final, fiz a retífica, nivelei os trastes, processo de coroamento, polimento e deixei com aquele brilho que cega qualquer um!

Além disso usinei um nut novo em Graphtech e encordoei com as Ernie Ball Beefy Slinky, aquelas da embalagem amarela, com calibres de 0.11 a 0.54, o mesmo peso que gosto de usar nos meus setups.
A geometria ficou redonda: relief de 0.12mm, ação no 12º traste batendo 0.5mm na prima e 1.25mm na bordão. Quase uma guitarra rebaixada?

O cliente adorou! Fizemos apenas uns ajustes pontuais de conforto para adaptar tudo ao gosto dele (sempre faço isso no final de cada setup).
E além de tudo fiz um grande amigo!

E no meio de tudo isso, enquanto eu fuçava sites em busca de serial, lia catálogos, cortava potenciômetro, soldava pickups, desenhava, tingia e resinava a tampa do tensor, o pessoal tava me esperando em casa com um bolo. Hahaha.
A guitarra chegou na oficina no dia 18 de agosto. E tirei o dia pra dar início e fim ao projeto… no dia 19, exatamente no meu aniversário de 30 anos.
E como o serial já não me deixava mentir, ela foi fabricada em 1996. Nasceu no mesmo ano que eu! E uma pena não dar pra saber o dia, será que é aquele 29/11 na cavidade do pickup do braço? Acho que sim… mas fica entre nós… vamos fingir que ela tbm nasceu no dia 19 de agosto de 1996?

Confesso que foi um baita presente de aniversário poder dissecar um instrumento com a minha mesma idade e dar nova vida a ele na bancada.
Logicamente, como o meu foco é sempre a preservação, guardei toda a fiação original, a chave rotativa antiga, a tampa do tensor quebrada e tudo mais que vinha em um invólucro separado para o cliente.
Se um dia ele vender ou quiser voltar a guitarra para o estado exato de fábrica, tá tudo guardado e intacto…

Demorei um pouco para soltar este diário porque o mês foi bem puxado por aqui.
Graças a Deus tive muitos serviços na oficina esse mês de Agosto. Gravei, fotografuei e registrei cada etapa dessa Eggle e outros instrumentos, mas faltou tempo hábil para parar, processar as ideias, estruturar os texto, editar os vídeos e afins.
Mas pode aguardar, que em breve tem mais conteúdo técnico e pesado saindo do forno no site, no Instagram e no YouTube!
Algumas fontes e referências caso alguém se interesse em aprofundar no assunto:
• Patrick Eggle Guitars — registros históricos e catálogos da era Coventry.
• Seymour Duncan — documentação oficial sobre a linha Alnico II Pro e a trajetória de Maricela “MJ” Juarez no Custom Shop.
• Seymour Duncan User Forum — discussões históricas sobre identificação e códigos de captadores vintage.
• Schaller — documentação histórica oficial sobre as tarraxas M6 e sua evolução.
• Gotoh — catálogo técnico de 1994.
• Hiscox — documentação oficial da linha Liteflite.
