Fender Musicmaster (Mod. Duo-Sonic) Pre-CBS – Herança, Modificações e o Verdadeiro Valor de um Instrumento | Diario de pesquisa

A minha história com essa Fender Pré CBS começou da forma mais cotidiana possível. Uma cliente que costumava sempre passar em frente à minha oficina parou para conversar sobre algumas curiosidades de restauração e me contou a história de uma guitarra que estava parada na casa dela: ela pertencia ao falecido marido, e pai da sua filha. O instrumento estava guardado e esquecido há anos.

Ela começou a falar sobre a guitarra e antes mesmo de vê-la eu já deduzi que ela falava de uma Fender duosonic!

Ela comentou da pintura ser meio “zoada” e que era difícil de limpar… logo me antei que era nitrocellulose e disse que o ideal era limpar com nafta…

A cliente disse pra eu parar de falar ali mesmo que ela ia buscar a guitarra pra mim!

Enfatizou que procurava um bom luthier no distrito de Lisboa a um bom tempo, mas não sentia confiança em levar a qualquer pessoa algo com uma memória afetiva tão forte… muitos nem se quer tinham a ideia de que usar nafta era o ideal para limpar esse tipo de acabamento, afirmava que ali eu ganhei a confiança dela!

Enfim, ela trouxe a guitarra, uma Duosonic vermelho fiesta em nitrocellulose com verniz do braço quase todo gasto, logo toda descascando, ferragens sujas e trastes enferrujados.

Fizemos uma avaliação inicial e orçamento básico… setup premium ficou definido e conversamos um pouco mais. Finalmente dei início ao trabalho no dia seguinte.

Olhando de fora, a guitarra não trazia número de série visível ou documentação que comprovasse sua autenticidade de imediato. Mas não me restava dúvida que era uma pre-CBS original na minha frente… não sabia o ano exato, mas eu sabia que era!

No mercado vintage, a ausência de serial costuma acender um sinal de alerta em muitos e derrubar o valor monetário. Contudo, quando uma peça dessa época chega à bancada, a madeira, os traços de desgaste do tempo e a construção contam a história sem precisar de um papel assinado. Tem marcas que nem a melhor falsificação ou o mais intenso relic jamais poderiam gerar!

Passei pelo menos três dias restaurando tudo que eu encontrava e depois ao menos mais sete dias pesquisando catálogos históricos da Fender dos anos 50 e 60, analisando registros de época e desmontando cada componente até chegar a um veredito fundamentado. A cliente pediu um “dossiê bem minucioso”. Não pra comprovar veracidade, ou fins mesquinhos como o valor monetário, mas sim pra agregar valor a história pessoal e familiar com tal instrumento!

No headstock, a logo trazia a inscrição Musicmaster, embora parcialmente apagada perto do decalque principal. A escala em Rosewood (Jacarandá) já me deu uma pista importante de datação: a Fender só passou a usar escalas de Rosewood nos modelos de escala curta (Musicmaster e Duo-Sonic) a partir do meio de 1959, aposentando os braços inteiriços de Maple da primeira leva. Ao remover o braço, encontrei no neck pocket uma etiqueta com a inscrição “0186 62”. Isso aponta fortemente para um lote de 1962, em plena era Pre-CBS.

A madeira do corpo, o perfil do braço short scale, o raio de escala de 7,25″ e o padrão das tarraxas batem com as especificações de fábrica de Fullerton. Dificilmente alguém faria um trabalho tão minucioso de falsificação em uma guitarra de entrada dos anos 50/60, cujo valor de mercado na época não justificaria o esforço.

Inclusive eu sempre falo sobre isso… ninguém daquela época sabia que essas guitarras seriam tão raras hoje em dia… então todo mundo comprava barato, customizava, e não tava nem aí. Hoje em dias elas só são raras de achar se forem 100% originais. Modificadas, temos a rodo!

E isso leva a próxima temporada dessa saga… ela passou por uma “cirurgia” nos 70s… foi de de Musicmaster para Duo-Sonic… como assim?

Ao retirar o escudo, veio o achado mais curioso da análise, sem dúvidas. O corpo sem dúvidas nasceu originalmente como uma Musicmaster, projetado para ter apenas um captador no braço. No entanto, foram feitas cavidades adicionais na madeira para comportar um captador na ponte e uns ajustes pra chave seletora e potenciômetros… transformando a guitarra, na prática, em uma Duo-Sonic.

Dentro da cavidade, encontrei marcações à mão feitas por outro luthier em meados dos anos 70 (entre 1973 e 1978). Esse detalhe se encaixa perfeitamente na lógica da época: como eu sempre digo, nos anos 70, uma Fender de escala curta dos anos 60 era apenas uma guitarra velha de estudante. Ninguém previa a especulação financeira ou o fetiche do mercado vintage pelo termo Pre-CBS que temos hoje. É super comum fazermos isso hoje em dia com guitarras das décadas de 2000 ou 2010. Não podiam pensar assim também na época? É bem provável que o dono daquele momento simplesmente queria mais timbres no instrumento e mandou alterar a madeira sem o menor peso na consciência.

Além disso, em algum momento entre o final dos anos 90 e início dos anos 2000, o instrumento passou por mais uma atualização de qualidade de vida. Os captadores antigos deram lugar a um par de DiMarzio Noiseless: um DP415 (Area 58) e um DP416 (Area 61), garantindo o típico estalo característico de Stratocaster mas sem o ruído de 60Hz. A elétrica trazia componentes funcionais mais recentes, com potenciômetros de 250K, fiação organizada e o Shielding Plate de alumínio sob medida no escudo.

Como o valor de originalidade estrita para colecionadores já havia sido alterado pelas modificações passadas, a decisão mais coerente para o uso atual foi focar na melhor performance possível. Provavelmente foi isso que o dono pensou na altura… ele tinha em suas mãos o que podemos chamar de o melhor de dois mundos!

Refiz e reforcei as soldas, limpei e lubrifiquei os componentes e executei uma blindagem completa com fita de alumínio a pedido da cliente, deixando o circuito com som 100% limpo. Já que não era mais original, melhor focar na eficiência!

E isso pode machucar muitos puritanos. Mas é a verdade!

Com base em todas minhas pesquisas, experiência empírica e senso comum da comunidade, além de opniões de vários outros amigos luthiers e/ou colecionadores… acredito fielmente que esta seja de fato uma Fender Musicmaster Pre-CBS legítima que viveu a vida real de um instrumento de trabalho. Ela passou pela fase da modificação funcional em algum momento dos anos 70, recebeu uma eletrônica moderna em algum momento dos anos 90/2000 e chegou à minha oficina agora em 2026 para se tornar uma herança familiar perfeitamente tocável. Com toda sua história e legado preservados ao máximo, com total respeito, carinho e atenção.

Muitos puristas olham para um corpo reaberto ou para a falta de um serial e cravam que o instrumento não vale nada.

Mas existe uma diferença fundamental entre preço, valor monetário, valor histórico e valor sentimental. E isso eu afirmo sem piscar os meus olhos!

Grandes nomes da história da música fizeram exatamente isso com instrumentos que hoje valeriam fortunas. Não é?

Jimi Hendrix ateou fogo em Stratocasters em pleno palco… Eddie Van Halen pegou um corpo de madeira sobressalente, usou um formão para abrir espaço para um humbucker e criou a Frankenstrat, redefinindo a história do rock.

Na época, eram apenas ferramentas de trabalho sendo adaptadas para a necessidade do músico. Ninguém ia imaginar esse bom histórico!

E é isso que faz um instrumento ser tão caro! Não é ele ser um pre-CBS… eu mesmo tenho uma Fender Stratocaster de 1964 que era do meu avô… ela se não tivesse modificações, poderia valer mais de 40mil euros! O valor está nos itens intocáveis… e vejo muitos charlatões tirando proveito disso em fóruns na internet…

Mas voltando a guitarra do meu avô… eu jamais a venderia, mesmo se me dessem um milhão! Nada compra os sentimentos que nutro por ela! É aí que está a diferença do preço e do valor!

As vezes penso comigo mesmo… será que daqui a 60 ou 70 anos uma Solar, uma Ibanez ou uma ESP terão o mesmo hype que uma Fender antiga tem hoje?

Ou melhor… será que uma usada intensamente em turnês e modificadas pelo dono terão o mesmo peso histórico?

São perguntas para nós fazer refletir… responda para você mesmo… faz sentido? Realmente as pessoas confundem as coisas?

Enfim, para o mercado estritamente financeiro de colecionadores, as alterações tiram o apelo do investimento. Acredito que isso seja um fato irrefutável. Instrumentos customizados, sem serial e afins normalmente tentem a valer menos, monetariamente falando…

Mas para a jovem que vai receber o instrumento do falecido pai totalmente funcional, ajustado e carregado de história, o valor é inestimável. A luthieria serve para isso: entender a técnica, respeitar a trajetória do objeto e garantir que a música continue.

Meu nome é Kris Luthier, sou o fundador e luthier senior da Luthieria: Music is Life Lisboa, especialista em restauro e história da arte.

Espero que esse diário possa mostrar que nem sempre é sobre dinheiro… mas as vezes é sobre ouvir o coração!

Detalhe do headstock
Detalhes da abertura feita nos 70s
Elétrica “moderna” 90s
Detalhe Dimarzio
Costas
Frente

Vídeo mostrando mais detalhes

Detalhes da escala

Teste sonoro

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