Fender Japan Telecaster: TL72-55 ou CTL-50M? | Diário de Pesquisa

Tudo começou da forma mais corriqueira possível na bancada. A guitarra entrou para um serviço de Setup Premium, regulagem completa, revitalização, retífica e nivelamento dos trastes. Assim que tirei a capa e coloquei o instrumento na bancada, a primeira impressão foi imediata: “Ok, isso aqui é uma Telecaster estilo anos 70, com certeza uma TL72”.

Visualmente ela entregava tudo de bandeja: o logotipo clássico avantajado no headstock, o braço em maple de peça única com a listra de nogueira (skunk stripe) atrás, o escudo preto de três camadas, a ponte vintage, o neck plate cromado com o “F” estampado e o número de série gravado no headstock começando com a letra “E”. Na minha cabeça, a identificação levaria no máximo vinte minutos. Era só bater as fotos pra postar, checar o catálogo da época e fechar o relatório de setup… pensava eu.

O problema é que “parecer uma TL72” não resolve absolutamente nada no universo da Fender Japan dos anos 80. Foi exatamente aí que a armadilha se armou e o que era para ser uma checagem rápida virou uma obsessão de dias. As vezes esse é o maior problema em ser fascinado por historia e coisas vintages…

Uma explicação breve para contextualizar: As Fender fabricadas pela FujiGen no Japão não usavam nomes comerciais simples para os seus modelos. Eles batizavam as variações com base no preço de tabela em Yenes (¥) na época. Então, dentro da família TL72, existia uma infinidade de modelos, como por exemplo: TL72-20, TL72-40, TL72-50, TL72-55, TL72-60, TL72-70, TL72-75, TL72-90… A lista enquanto eu pesquisava parecia não ter fim. Cada número extra no sufixo significava uma diferença em Yenes, e essa diferença se traduzia em mudanças de especificação: madeira do corpo (Basswood, Alder ou Sen/Ash japonês), tipo de captação, acabamento da tinta, qualidade das ferragens, se o modelo era destinado ao mercado interno japonês ou para exportação, etc.

Para mim já não bastava saber que era uma TL72. Eu precisava descobrir qual TL72 estava na minha bancada.

A partir desse momento, a pesquisa virou um trabalho braçal e cansativo. Passei dias com dezenas de abas abertas no computador, varrendo catálogos oficiais da Fender Japan ano a ano, cobri todo o período de 1979 até 1991 (confesso que valeu a pena, descobri muita coisa nova, sem relação direta ao assunto, que eu não sabia). Eu analisava página por página em, catalogos que comprei em plataformas de usados, PDFs escaneados com resoluções nem sempre perfeitas, tentando comparar detalhes mínimos das fotos de época com o instrumento físico a poucos centímetros de mim.

Analisava a posição exata das inscrições no headstock, a distância dos retentores de corda, o tipo de plugue de nogueira onde fica o tensor, o raio da madeira e o acabamento da pintura. Aliás, a cor foi um dos primeiros nós na cabeça. O tom amarelado da guitarra parecia muito mais um Monaco Yellow moderno ou um Vintage White que amarelou pesado com o tempo do que o típico Blonde translúcido ou acabamentos naturais das séries TL72 mais caras que apareciam nas fotos dos catálogos.

Para piorar, as ferragens me mandaram para vários caminhos errados. Olhando para as tarraxas Gotoh blindadas e para os saddles compensados na ponte, a minha primeira hipótese foi a mais óbvia para qualquer luthier: “O dono anterior fez um upgrade. Trocou as tarraxas originais por um jogo Gotoh de melhor qualidade e colocou carrinhos compensados para acertar a oitava”. Fiquei preso nessa tese por pelo menos dois dias. A minha sorte foi que a cliente teve uma viagem de ultima hora e demorou vir buscar a guitarra, tive mais tempo pra estuda-la.

Porém, conforme eu me aprofundava nas especificações de produção da fábrica da FujiGen, descobri algo que me pegou completamente de surpresa: a FujiGen usava algumas ferragens, tipo as tarraxas, da Gotoh como item original de fábrica em diversos modelos da Fender Japan naquela metade dos anos 80. O que eu jurava ser uma modificação feita por um dono antigo era, na verdade, uma grande chance de ser a guitarra saindo exatamente assim da linha de montagem de Matsumoto. Acredito que apenas os saddles compensados realmente eram uma melhoria posterior.

Chegou um ponto em que a quantidade de inconsistências visuais e a falta de um encaixe perfeito nos catálogos me levaram à paranoia. Comecei a suspeitar seriamente do pior: “Será que essa guitarra é uma falsificação vintage ou um ‘partscaster’ montado com peças de origens diferentes?”.

Aproveitei o tempo extra que a cliente me deu com sua viagem e resolvi desmontar tudo… mas isso só me gerou mais perguntas!

Em uma investigação séria, quando você chega nesse nível de dúvida, a tática precisa mudar. Parei de tentar provar que a guitarra era verdadeira e passei a tentar provar que ela era FALSA. Comecei a procurar a falha que desmascararia o instrumento. Se fosse uma réplica ou uma montagem, em algum momento a madeira ou o processo de fabricação iriam se contradizer.

Passei horas examinando a usinagem do encaixe do braço no corpo (o neck pocket), as marcas de gabarito e furação da FujiGen, a espessura do acabamento, a geometria da mão do braço, a qualidade do trabalho de madeira e um detalhe super importante que vou citar mais adiante. A resposta do instrumento foi implacável: a construção era impecável. Todo o trabalho de marcenaria e acabamento gritava (e eu tambem, AAaahhhhhh) o padrão de excelência da FujiGen do meio dos anos 80. Não havia a menor chance de ser uma réplica. As peças conversavam perfeitamente entre si, mas o enigma do modelo exato continuava sem solução.

Foi um processo exaustivo. Cruzei informações em bancos de dados históricos como o Guitar-Catalog.com, o GuitarInSite.nl e os arquivos da família Alston dedicados às Telecasters japonesas. Usei até ferramentas de inteligência artificial para me ajudarem a organizar o volume enorme de dados, cruzar referências e testar hipóteses lógicas sobre a linha do tempo de fabricação. Muitas vezes a IA me dava uma resposta que parecia brilhante, mas quando eu cruzava com o catálogo oficial escaneado, a informação não batia e eu tinha que descartar tudo e voltar ao ponto zero.

Mas o ponto de virada definitivo da história aconteceu quando retirei o braço do corpo para inspecionar o tróculo. Gravado na madeira do calcanhar (heel), em um carimbo de tinta, estava escrito: CTL-50M. E honestamente foi isso que me fez pensar que poderia ser falsa, como citei ali atrás… esse é o detalhe super importante!

Se a ideia era esclarecer as coisas, aquele carimbo inicialmente só serviu para dar um nó ainda maior na cabeça. Ao consultar o catálogo da Fender Japan de 1983, o código CTL-50M não pertencia a uma Fender, mas sim a uma Squier Telecaster by Fender.

Como era possível uma guitarra que ostentava um logo gigante da Fender no headstock trazer um carimbo interno identificando o braço como um modelo Squier? Na minha cabeça so se passava a hipótese de ser uma falsificação! E honestamente, essa seria uma das boas, se fosse mesmo, seria a melhor que já tinha visto na minha vida toda!

A resposta para esse mistério só apareceu depois de mais de 6 horas do meu dia de folga garimpando registros de instrumentos sobreviventes pelo mundo, até que encontrei o anúncio arquivado no Reverb de uma Fender Japan rigorosamente idêntica.

Link da Reverb: https://reverb.com/item/873050…

Quando olhei os dados dessa outra guitarra, o choque foi imediato:

  • O número de série da guitarra da minha bancada: E839868
  • O número de série da guitarra encontrada no Reverb: E839659

A diferença entre as duas era de apenas 209 números de série na linha de produção da fábrica. E, ao checar as fotos do braço desmontado daquela guitarra do Reverb, lá estava exatamente a mesma gravação no calcanhar: CTL-50M.

Todas as peças do quebra-cabeça finalmente se encaixaram.

A sigla CTL-50M não era o nome do modelo comercial vendido na caixa para o consumidor final, mas sim o código interno de fabricação do braço usado pela FujiGen durante o período de transição entre 1984 e 1985. A guitarra foi produzida e vendida ao mercado como uma Fender TL72-55 (que custava ¥55.000 no catálogo).

Durante essa busca por números de série da Série E, também cruzei com exemplares de lotes mais avançados, como o desse link aqui, foi outro anuncio que me fez confundir muito as coisas: https://www.ebay.com/itm/26736…

Serial E971663. Tarraxas Gotoh idênticas a que estava na minha bancada. Embora viesse da mesma época e da mesma fábrica da FujiGen, ele já estava no bloco dos 971 mil, ou seja, cerca de 130 mil números de série depois da minha guitarra e daquela do Reverb. Essa comparação foi importante porque ajudou a posicionar o meu instrumento exatamente no início do ciclo dessa série, eu diria que entre 1984 e 1985, empiricamente “provando” que o carimbo CTL-50M no braço era um padrão bem específico daquele primeiro lote de transição… precisaria de mais guitarras iguais a essa pra cravar como um fato, mas é o que mais faz sentido pra mim ate o momento atual.

Enfim, indo para a reta final, uma simples análise econômica encerra qualquer dúvida restante: a Squier CTL-50M custava ¥50.000 na época, enquanto a Fender TL72-55 custava ¥55.000.

A diferença total de tabela era de apenas 5.000 ienes. Para nos entendermos o peso disso na época, precisamos lembrar que meados dos anos 80 não existia Euro nem Real (em Portugal usavam o Escudo Portugues e no Brasil usavam o Cruzeiro). A moeda global de referência era o dólar.

Fazendo a conversão basica da época, onde 1 dólar valia cerca de 235 a 240 ienes:

  • A Squier CTL-50M custava cerca de US$200 a US$210.
  • A Fender TL72-55 saía por volta de US$220 a US$230.

Ou seja: a diferença real de preço entre levar uma Squier ou uma Fender para casa era de uns 20 dólares.

Se a gente trouxer esse valor de US$20 da época para os dias de hoje, corrigido pela inflação acumulada de quatro décadas, estamos falando de algo em torno de 60 dólares de hoje, o que dá aproximadamente 55€ ou R$330,00.

E é aqui que a mágica da lógica entra e que mais me chama a atenção: ninguém em sanidade mental na década de 80 faria uma falsificação por causa de 20 dólares. O custo de mão de obra para alterar o logo do headstock, remarcar a madeira, adulterar componentes e tentar disfarçar a origem do instrumento custaria muito mais do que os 20 dólares de lucro que a pessoa ganharia no golpe. O risco e o trabalho simplesmente não pagavam a conta. Se você quisesse uma Fender, bastava comprar uma Fender, nao é?

Para deixar o cenário ainda mais claro, mesmo comparando a tabela da época com o mercado atual, não vale a pena essa possivel falsificação:

  • O valor de fábrica corrigido: Se pegarmos o preço de tabela de 1984 de uma Fender TL72-55 (US$230) e ajustarmos apenas pela inflação até hoje, a guitarra custaria cerca de 680 a 700 dolares (em torno de 640€ ou R$3.700). Na época, era um instrumento de preço intermediário, super honesto e acessível no Japão.
  • O valor de mercado atual (Colecionadores): Hoje em dia, por conta da fama absurda da “era de ouro” da fábrica da FujiGen, o mercado vintage explodiu. Essa mesma Fender TL72-55 dos anos 80 é negociada em sites como Reverb, eBay ou entre colecionadores por valores que varian entre US$1.100 a US$1.400 (algo na casa dos 1.000€ e 1.300€ , ou R$6.500 a R$8.500 no Brasil, dependendo do estado de conservação).
  • E até a própria Squier MIJ dessa época subiu de patamar: hoje uma CTL-50M original não sai por menos de 750€ a 900€ (R$ 4.500 a R$6.500).

Analisando esses números (que eu joguei muito abaixo, pode ser que custem muito mais, se tiverem bem conservados), fica evidente que o carimbo CTL-50M no braço nunca foi uma tentativa de fraude.

A FujiGen era uma fábrica gigante focada em eficiência de produção. Durante aquela fase de transição de estoque entre 1984 e 1985, quando faltavam braços gravados com o código TL72 nas esteiras, acredito que era comum eles simplesmente pegarem os braços com especificações idênticas da linha CTL-50 (que tinham a mesma madeira, raio e perfil) e provavelmente montavam nas guitarras que saíam etiquetadas e vendidas como Fender TL72-55.

Não especificamente vou afirmar que era assim e acabou… acredito que somente quem estava lá poderia dizer isso, mas os fatos não mentem e convenhamos que requer pouco esforço para considerar essas isso como o mais provável

Eu digo que era gestão de estoque de fábrica pura e simples, não uma adulteração.

O que começou como uma simples busca por um número de modelo virou uma verdadeira viagem pela história de fabricação da FujiGen nos anos 80, mostrando na prática como a rotina real de uma grande fábrica de guitarras nem sempre seguia à risca a organização engessada dos catálogos comerciais.

Para quem vê de fora, parece bizarro uma fábrica gigante lançar instrumentos com peças misturadas. Mas a história está cheia dessas fases de transição e improviso.

Como por exemplo histórias que sempre ouvi por aí, a Fender de 1969, que para queimar estoque parado, recortaram corpos de 12 cordas e usaram braços de Mustang para criar as raras Swinger. Na Gibson dos anos 70, a crise gerou os corpos pancake laminados para economizar madeira. E nos anos 80, a Kramer usava peças japonesas da ESP montadas nos EUA com números de série aleatórios.

E acho que é algo comum em qualquer setor, quando a produção aperta, a fábrica se adapta.

No final das contas, eu me diverti demais com todo esse processo e aprendi pra caramba.

Foram quase sete dias de busca diária, lendo catálogos antigos da Fender Japan, desmontando a guitarra e analisando peça por peça na bancada. O lado bom é que agora fiquei com uma biblioteca completa de livros e catálogos organizados no meu Drive para quando precisar consultar de novo.

Sempre fui fascinado pela história por trás dessas marcas e por tudo que envolve o universo dos instrumentos vintage. Essa paixão por música e história vem desde a infância, e foi exatamente o que me fez escolher essa profissão. Em 2016, quando fiz a master de restauro e história da arte em Florença, essa visão ficou ainda mais clara para mim, um pouco antes de decidir abrir minha própria oficina em 2017.

O mais curioso é que, do ponto de vista prático de bancada, esse foi um dos projetos mais simples que peguei recentemente. A parte de regulagem, ajustes e restauração do instrumento fluiu super fácil. Afinal, essas Fender Japonesas da época cumprem bem e fazem jus a sua fama. Por outro lado, foi uma das guitarras que mais me deu dor de cabeça na hora de cruzar os fatos e entender a história do instrumento.

Isso só mostra que cuidar de um instrumento antigo vai muito além de ajustar a mecânica ou fazer uma boa regulagem. Trata-se de respeitar e entender o contexto em que a guitarra foi feita. No fim das contas, é essa história gravada na madeira que realmente dá valor ao instrumento.

Meu nome é Kris Luthier, sou especialista em restauro de guitarras, baixos e instrumentos de corda.

Nesses links/vídeos fixados abaixo vocês podem conferir o som, o timbre e todo processo de restauro dessa Fender japonesa dos anos 80.

TL72 vs Play Series 2022
Headstock e E Serial
Neck Plate F – Made in Japan
CTL-50M
Guitarra completa
Gotoh Tuners
Ponte/Bridge Antes
Ponte/Bridge Depois
Frets Antes
Frets Depois
CTL-50: catálogo da Twang5 de 1983
TL72-55: Este é um catálogo feito a partir de uma grande folha de papel tamanho A1 que foi dobrada. Embora o ano de publicação não esteja indicado, a contracapa traz a inscrição “Twang6”, sugerindo que provavelmente seja um catálogo de cerca de 1984
Fender&Squier Color Chart

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